A Dor Emocional : Quebrando o Estigma – Racismo

Há uns tempos atrás reflectimos sobre o “O Estigma da Depressão”, hoje vou tecer algumas considerações sobre “O Estigma do Racismo”. Continuamos a viver num mundo e numa sociedade ainda dominados por este ” Estigma”, pois infelizmente as pessoas ainda não aprenderam a conviver e a respeitar a diferença! A grande maioria dos seres humanos não entende que a diferença é enriquecedora, faz-nos amadurecer em todos os sentidos e ter uma perspectiva mais ampla da vida. Hoje em dia, enfrentamos vários tipos de Descriminação que são gerados por uma mina, muito bem camuflada. O Preconceito existe por causa de inúmeros factores (julgamentos precipitados que fazemos de algo que desconhecemos e não nos damos ao trabalho de conhecer, ou porque vivemos uma experiência negativa sobre uma determinada situação e imediatamente generalizamos toda a realidade, ou simplesmente por causa de um ódio infundado), contudo nenhuma destas razões justificam a existência do Preconceito! É o Preconceito que nos faz erguer as barreiras da ignorância e inevitavelmente somos consumidos por sentimentos como orgulho, a arrogância, a pretensão de nos acharmos superiores aos outros e o medo de enfrentar o outro lado do “mundo”! Dentro deste vasto leque da Descriminação neste segundo capítulo da “Série Quebrando o Estigma” vamos apenas debruçar-nos sobre o Preconceito Racial.

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De um modo geral as pessoas acham que o Racismo tem apenas a ver com a cor da pele, todavia isto é um mito. Este estigma é muito mais abrangente, porque se trata de um preconceito racial, cultural, religioso e xenófobo!

Poderia apenas falar sobre o que é o Racismo e citar factos sobre ele, mas achei que seria interessante mostrar-vos exemplos, actuais e revelantes, onde está bem patente a sua existência.

Antes de aprofundar a ideia atrás referida, gostaria de frisar que este texto é um resultado das minhas opiniões sobre este assunto, sem qualquer pretensão de obrigar-vos a ter a mesma perspectiva sobre esta questão. Espero que respeitam a minha subjectividade/ a minha verdade, porque cada um de nós tem a sua própria verdade.

Grenfell Tower Fire

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Na madrugada de 14 de Junho, o mundo presenciou um dos maiores incêndios que sem dúvida ficará na história da nação Inglesa. A torre Grenfell, um edifício considerado ‘social’, de 27 andares, foi consumido por incessantes chamas que acabaram por vitimar, até ao momento, 79 pessoas. Apesar dos esforços dos 200 bombeiros para conter a fúria do incêdio, o prédio ficou reduzido a uma carcaça arquitectónica.

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Mais tarde, sugiram relatórios que davam conta de reconstruções malfeitas, do uso de materiais inadequados para construção, e um senhorio preconceituoso. Os moradores desta zona e simpatizantes levantaram-se e exigem respostas e justiça pelas vítimas de um governo que prioriza o bem-estar e segurança dos ricos, e negligencia aqueles que por situações incontroláveis da vida, vivem no limiar da pobreza.

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A tragédia que chocou a Inglaterra e o mundo, faz-nos questionar: se os moradores desta torre pertencessem a um determinado estrato social, ou fossem de outra raça (98% das vítimas citadas em todos os “outlets” de notícias, pertencem a raças árabes, muçulmanas e africanas), não teria havido um maior cuidado na reparação de determinadas deficiências ao nível da construção deste edifício?

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Finsbury Park Mosque Attack

Na madrugada desta segunda-feira, dia 19 de Junho, Darren Osborne, um homem de 47 anos, atropelou 12 pessoas em frente a uma mesquita muçulmana. Os fiéis, que cumpriam o seu calendário religioso do ramadão, com as suas orações a Alá, foram surpreendidos pela van, conduzida por Osborne, à saída da Mesquita de Fisbury Park. Uma pessoa morreu, 9 feridos foram transportados para o hospital e outros 2 foram tratados no local. O assassino, ao sair da sua van, foi detido por transeuntes que já tinham chamado as autoridades. Enquanto ficou retido no local do crime, testemunhas recontam os gritos perturbados de Osborne, confirmando a sua intenção de “matar todos os muçulmanos”.

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Esta situação é uma clara evidência de um preconceito suscitado por um ódio infundado e “justificado” por um pré-julgamento criado contra uma raça e religião.

Vivemos numa sociedade em que cada vez mais se relaciona, se associa, o Islamismo e a cultura muçulmana a um extremismo terrorista injustificável e imperdoável transversalmente.

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Infelizmente, até alguns cristãos fundamentalistas, não respeitam a fé Islâmica, ignorando um dos maiores mandamentos da Bíblia: “Amai ao próximo, como a si mesmo”. Deus não nos pede para comungar a mesma fé que os muçulmanos, mas sim respeitar a sua fé e tratá-los com amor. Esta atitude certamente acabaria com o Preconceito/Racismo que estes cristãos manifestam contra a raça muçulmana.

Incêndio de Pedrógão Grande

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“Era uma estrada como há tantas outras em Portugal. No passado sábado, a estrada nacional 236-1 tornou-se na “estrada da morte”.

“O incêndio de Pedrógão Grande matou 64 pessoas e deixou mais de 200 pessoas feridas. É o incêndio mais mortífero de que há memória em Portugal. Consumiu dezenas de milhares de hectares e colocou o país nas manchetes da imprensa mundial pelos piores motivos.”

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Após uma extensa investigação às possíveis falhas, ou lapsos acontecidos no combate às chamas, os noticiários foram invadidos por relatórios que atestavam equipamentos falhos usados para a comunicação entre os bombeiros, equipamentos não resistentes às altas temperaturas, e falhas na evacuação da população, mais tarde especulada de se ter tornado uma espécie de armadilha que acabou por aumentar drasticamente o número de fatalidades.

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Porque é que não foram accionados imediatamente os meios aéreos? Porque é que os alarmes não funcionaram? Porque é que os Bombeiros Voluntários trabalham em condições precárias, devido à falta de uma infraestrutura que lhe permita exercer o seu trabalho com segurança, não tendo que arriscar as suas próprias vidas!? Os equipamentos que são usados não são adequados, não têm a funcionalidade necessária, nem são suficientemente modernos e eficazes para aplacar um incêndio voraz e cruel como o que deflagrou em Pedrógão Grande, e mais tarde Góis! Será que se se tivesse investido os devidos recursos financeiros para criar todo uma infraestrutura adequada, actualizada e funcional nas Associações dos Bombeiros Voluntários espalhadas pelo país, mas concretamente aqui na zona centro, teria morrido tanta gente? Será que centenas e centenas de pessoas teriam perdido todos os seus bens, todos os rendimentos de uma vida inteira, ou os rendimentos gerados por mini-empresas de pessoas empreendedoras, esforçadas e que tentam driblar a crise laboral que reina em Portugal? Será que este incêndio implacável teria vitimado tanta gente, lançando-os na miséria?

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Que perspectiva de futuro terá este povo que “arregaçou as mangas” e sempre lutou bravamente contra as circunstâncias económicas contrárias e contra o poder de compra reduzido, mas que  mesmo assim foi defraudado? Certamente que esta tragédia não aconteceria nas zonas e sectores de luxo, da alta sociedade! Não estará aqui também bem patente uma outra face do Racismo: a desigualdade social e a desigualdade de oportunidades e recursos financeiros?

Como vimos nos três exemplos anteriormente citados, o Racismo apresenta-se por vezes de uma forma gritante, como podemos analisar na tragédia de Finsbury Park; outras vezes, manifesta-se no rescaldo de uma situação que à primeira vista demostra-se incontrolável, mas mais tarde desmascara uma arrogância e uma superioridade em relação a outras raças, como lemos na tragédia de Grenfell; mas também podemos constatar com o mortífero incêndio de Pedrógão Grande, que por vezes não se trata só de uma desigualdade Racial, mas também de um Preconceito Cultural e Social, que acaba por vitimizar os “marginalizados” da sociedade.

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2 Comments Add yours

  1. Rita says:

    Há necessidade cada vez maior de se trabalhar na Educação para as relações étnico raciais.

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  2. artellweb says:

    Pré-conceito, como indica a formação da palavra, é uma ideia formada antes (durante a nossa educação, formação?), despoletada pelas mais variadas circunstâncias, indicadora de que a sociedade ainda tem muito que aprender e ensinar para mudar isso.
    Talvez seja inocência acreditar que estamos imunes a ele…
    Há uns anos atrás, esperava um concerto de jazz no Serralves em Festa, ia vendo os músicos a ocuparem os seus lugares quando ouço, umas duas filas atrás de mim, uma voz masculina dizer “Vamos ver os macacos tocar.”, tomei aquilo como uma brincadeira que nem dizia respeito àquele contexto. Entretanto chega mais um músico e a mesma voz diz “Mais um macaco.” e aí fiquei siderada, a acreditar que aquilo não estava a acontecer, que não estava ali um homem, sem problemas de consciência, sem vergonha ou embaraço, a referir-se à frente de todos, em voz alta, daquela forma aos músicos, mas (e há sempre 1 para chatear), era verdade e eu pensei logo “Ora aí está o resultado da democratização da cultura.” e, de imediato, percebi que estava a agir exatamente como o dito homem, tapei automaticamente a boca com a mão, num reflexo irrefletido..
    Quando os últimos acordes estavam a ser dados e o concerto ia começar, o homem ainda atirou “Anda já para aqui, os macacos vão começar a tocar”, aí não resisti, tive de me virar e ver o que se passava e vi um velho de 60 a 70 anos, a falar com uma criança dos seus 4 ou 5 e vieram-me à cabeça as palavras do Sting “It takes a man to suffer ignorance and smile” e dei por mim a sorrir àquele rapazito que, estava mais preocupado em brincar na e com a relva do prado, à procura do que quer que fosse que andava por lá a esgravatar do que a assistir ao concerto. O homem, que muitos sideravam com o olhar, acabou por ser regado com cerveja pelos adolescentes da fila de traz que foram cobertos de impropérios, obrigando os seguranças a acompanhar o senhor, com a criança, até à saída… Já agora, eu que nem sou fâ de jazz, adorei o concerto e não fui a única, infelizmente não me recordo o nome da banda, sei que eram americanos e sei que saí de lá enlevada, foi um final de dia es-pe-ta-cu-lar!

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